FERREIRA GULLAR
O que move as pessoas a atuar politicamente é a opinião,
que, por sua vez, nasce da informação, do conhecimento. É óbvio que, se não sei
o que se passa em meu país, não posso ter opinião formada sobre o que deve ser
feito para melhorar a sociedade.
Não estou dizendo nada de novo. No passado, em diferentes
momentos da história, quem governava era apenas quem tinha poder econômico e,
por isso mesmo, mais conhecimento da situação em que viviam.
E, na medida em que a educação se ampliou e maior número
de pessoas passou a ter conhecimento da realidade social, ampliou-se também a
influência da população sobre a vida política. Dessa evolução nasceria a
democracia.
Óbvio, no entanto, que esse aumento do nível de
informação não significa que a informação é sempre verdadeira e,
consequentemente, as escolhas, que faz o eleitor, nem sempre são corretas.
Há erros e acertos, claro, mesmo porque cada partido
político procura levar o eleitor a ter uma opinião que lhe seja favorável. Isso
implica em conquistar-lhe a confiança nem que seja às custas de mentiras e
espertezas.
Há, sem dúvida, o político competente e honesto, que não
precisa enganar o eleitor mas, pelo menos do Brasil de hoje, esse tipo de
político é exceção.
Deve-se assinalar também que o grau de informação --e
consequentemente a consciência política-- tanto pode ampliar-se como reduzir-se
em determinadas condições.
Aqui no Brasil, a impressão que se tem é de que, nas
últimas décadas, esse grau de consciência diminuiu, e isso se deve, creio eu, à
derrota do socialismo em escala mundial.
O socialismo, bem ou mal, em que pese aos equívocos que
continha, estimulava os jovens a participar politicamente e ter uma visão
crítica da sociedade. O fim do socialismo levou à desilusão e ao desânimo, o
que determinou a dissolução dos partidos de esquerda em quase todos os países.
No Brasil, não foi diferente. Não tenho dúvida de que
esse fato contribuiu para a decadência dos valores políticos, da ética
partidária e o inevitável predomínio do oportunismo político e da corrupção.
Por outro lado, os jovens, de modo geral,
desinteressaram-se pela política, o que contribuiu para tornar mais fácil a
ação dos corruptos e oportunistas.
Outro fenômeno decorrente disso foi --como ocorreu aqui--
a formação de uma casta que tomou conta da máquina do Estado, facilitada pela
decrescente participação das pessoas no processo político. O Estado foi sendo
dominado por famílias e grupos que passaram a dividir entre si os organismos
políticos e administrativos.
Pode-se dizer que, de certo modo, a sociedade passou a
ignorar o que fazem os políticos, tornando-se assim presa fácil das mentiras e
das medidas demagógicas.
Como explicar, no entanto, dentro desse quadro, as
manifestações que ocuparam as ruas nos últimos meses e que, em menor grau,
prosseguem por todo o país?
Acredito que esse fenômeno, que a todos surpreendeu,
decorre basicamente da quantidade de informações a quem têm acesso hoje milhões
de pessoas no país, graças à internet.
Não é por acaso que manifestações semelhantes têm
ocorrido em muitos países, possibilitando a mobilização de verdadeiras
multidões.
Veja bem, as causas do descontentamento variam de país a
país, os objetivos visados pelos manifestantes também, mas não resta dúvida de
que em nenhum outro momento da história tanta gente teve acesso a tanta
informação.
Pode ser que estejamos vivendo o início de uma nova etapa
da história humana, já que nunca tantas pessoas souberam tanto acerca da
sociedade em que vivem.
Há que considerar, no entanto, que nem sempre essas
informações são verdadeiras e, mesmo quando verdadeiras, podem levar a
conclusões nem sempre corretas.
Em suma, esse fenômeno novo, que mobiliza a opinião
pública, ainda que signifique um avanço, pode arrastar as pessoas a uma atuação
de consequências imprevisíveis. E por quê?
Por várias razões, mas uma delas será, certamente, o
risco do inconformismo pelo inconformismo, sem objetivos definidos e sem
lideranças responsáveis.
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